Rio Branco, AC 29 de agosto de 2026 23:59
HOME / ARTIGOS / O partido da mídia

O partido da mídia

Nas primeiras eleições diretas após o fim da ditadura, Lula, líder de uma agremiação que ainda não completara uma década, passou longe do radar no primeiro turno. Em 1989, a ameaça aos senhores do poder não era o sapo barbudo, mas o ex-governador Leonel Brizola. A ida do sindicalista à segunda volta marcaria o início de uma nova rivalidade. A manipulação pela Rede Globo do debate entre Lula e Fernando Collor, em favor do “caçador dos marajás”, seria a Pedra de Roseta de sucessivas intervenções dos meios de comunicação no processo eleitoral.

Em 2002, Lula, favorito, enfrentou a desconfiança pela falta de experiência administrativa. Seu principal adversário, embora eminência de uma legenda que havia levado o Brasil às cordas e ao racionamento de energia, era apresentado como o demiurgo da nação. Nascia ali uma das fábulas mais persistentes da crônica política brasileira, o “preparo” de José Serra. Tamanha era a devoção que não surpreenderia se um desses colunistas que expressam o pensamento dos patrões defendesse uma estrela Michelin para um pão na chapa servido pelo tucano. Em 2006, a farsa da pilha de dinheiro do dossiê dos aloprados, um conluio entre a imprensa “profissional” e um delegado da Polícia Federal denunciado por esta revista, impediu a vitória do petista no primeiro turno.

Fábio Luís da Silva, o primogênito apelidado de “Lulinha” pela mídia para criar uma associação direta com o pai, começou a despontar com mais frequência no noticiário e no universo das fake news em 2010. Lulinha, sabe qualquer cidadão de bem, é proprietário de uma Ferrari banhada a ouro e dono da Friboi. Em 2014, no auge da República de Curitiba, a revista Veja, às vésperas das eleições, estampou a capa “Eles sabiam”, ilustrada com as fotos de Lula e da presidenta Dilma Rousseff, candidata à reeleição.

A cruzada midiática não impediu as vitórias do PT nas urnas, mas degradou o ambiente político. Dois anos depois, ­Dilma seria cassada sem cometer crime de responsabilidade. Na sequência, Lula passaria 580 dias atrás das grades. Como era preciso prender e “esculachar”, o então ex-presidente acabaria impedido pelo ministro do STF José Dias Toffoli, acoelhado pela pressão da “opinião pública”, de ir ao enterro do irmão Vavá. E silenciado durante a disputa presidencial de 2018, quando o bolsonarismo emergiu das tubulações.

Em 2022, aturdidos pelas ameaças golpistas de Jair Bolsonaro, os meios de comunicação ficaram entre a cruz e a espada. Mas não demoraram a rodopiar no salão um Sátántangó, o tango com satã. Sem a quimera da “terceira via”, escolheram para a valsa um juiz-torcedor (qualquer semelhança não é mera coincidência) e as viúvas da Lava Jato na PF. Lulinha está de novo sob os holofotes, por meio de vazamentos seletivos, novelizados e desconexos. Já a apuração sobre os 61 milhões doados por Daniel Vorcaro ao clã Bolsonaro merece registros pontuais.

Não se trata exatamente de torcer por Flávio Bolsonaro. Basta conter qualquer ímpeto heterodoxo do atual mandatário. Quanto mais difícil a eventual vitória de Lula, menor a margem de ação do presidente no quarto e derradeiro mandato. Em paralelo, Arminio Fraga encarna ­Cassandra e vaticina, com ampla cobertura, a derrota da Troia petista. “Recessão, recessão”, repete aos quatro ventos.

Engana-se quem pensa que os adversários de Lula foram no passado os tucanos e são no presente os Bolsonaro. Desde sempre, a oposição é o partido da mídia.

Relacionadas