Há cerca de 30 anos, ouvi uma declaração que, hoje, reconheço como uma autêntica profecia. Estava numa reunião do InterAction Council, fundação criada pelos japoneses e alemães para atuar, no tempo da Guerra Fria, como intermediadora de conflitos entre as grandes potências, formada por ex-chefes de Estado e de governo, com apenas 40 membros, entre os quais apenas dois da América Latina — eu e De la Madrid, do México. Naquele encontro, realizado na cidade do México, ainda estavam vivos Fukuda, do Japão, grande estadista, muito influente no mundo àquele tempo; Gerald Ford, ex-presidente dos Estados Unidos; e Helmut Schmidt, ex-chanceler da Alemanha, cargo que corresponde ao de chefe de governo.
Foi justamente Helmut Schmidt, o mais eloquente orador que ouvi entre meus homólogos, quando eu era presidente, que antecipou, naquela reunião, que duas coisas ameaçavam o futuro da humanidade, o que, como uma confirmação da marca inequívoca dos grandes oradores, hoje se concretiza: as doenças desconhecidas e as migrações massivas.
Realmente, já enfrentamos a ameaça da covid-19, com a inexistência de remédios, a luta universal para chegar à descoberta de vacina e o negacionismo de alguns loucos. Mesmo assim, chegamos a um final feliz, embora com alguns milhões de mortos no mundo inteiro.
Mas agora assistimos, estarrecidos, ao desespero de 80 mil marroquinos que, enganados pelas falsas notícias de que a fronteira com Ceuta, fronteira da Europa com a África, estava aberta com a Espanha, se jogaram ao mar para fazer a travessia de 600 metros: ocorreram cerca de 20 mortes.
Essa região, uma passagem estratégica entre o Atlântico e o Mediterrâneo, tem sido, ao longo dos séculos, motivo de muitas guerras. E foi numa delas, na Batalha de Alcácer-Quibir, que desapareceu Dom Sebastião, que veio, segundo a lenda portuguesa, encantar-se na Praia dos Lençóis, na Ilha dos Lençóis, no Maranhão.
Pelo nosso testemunho, presenciamos o início das previsões de Helmut Schmidt. A Europa está vivendo o problema mais agudamente, com a invasão africana dos países outrora colônias europeias, que agora exportam muitos dos seus habitantes para os países desse continente. Isso o mundo viu na última Copa de Futebol nos Estados Unidos, em que a maioria dos jogadores dos times europeus era africana. Até, para surpresa, o goleiro do Japão era de origem africana.
Nós, aqui no Brasil, estamos livres das migrações massivas desordenadas. Eu sempre afirmo que temos uma posição privilegiada de integração e diplomacia em relação a muitos países do primeiro mundo, pois já resolvemos questões com que eles ainda lidam com grande dificuldade. Não temos fluxo de migrações massivas e desordenadas de outras regiões, nem ameaça delas; temos uma tradição de convivência pacífica entre religiões, sem os conflitos teocráticos cruéis, que estão na base da maioria das guerras localizadas atuais; não temos litígios territoriais de fronteira que ainda existem na Europa, nos Estados Unidos, onde o presidente Trump tem a obsessão por construir muros, como ocorre na fronteira com o México, e também a necessidade de ter um exército para combater imigrantes, o ICE, de triste fama, matador de americanos protetores de imigrantes e de imigrantes, inclusive com a morte de um brasileiro, também vítima do ICE.
É que, na nossa América Latina, temos uma cultura de paz. Somos o continente mais pacífico da face da Terra. Nossa última guerra foi a do Paraguai — uma guerra que lamentamos por suas perdas, pela violência extrema do desfecho, pelo massacre do povo vizinho e por seu custo social e financeiro — e, depois dela, há quase um século, a do Chaco, que opôs Bolívia e Paraguai em um duro e sangrento conflito fronteiriço.
Para mostrar a nossa vocação de paz, particularmente do Brasil, temos a exigência em nossa Constituição de que a nossa política deve ser sempre de negociação, nunca de violência. Agregamos uma decisão recente, assinada por mim e pelo presidente Alfonsín, de encerrarmos a corrida nuclear que existia entre o Brasil e a Argentina, baseada na tese dos países comunistas de que quem tiver uma arma nuclear terá um status de grande potência e será por elas respeitado.
O Brasil e a Argentina estavam nessa direção. Foi então que a redemocratização possibilitou o fim dessa corrida, tirando nossos países desse perigo. A divergência que sempre tivemos com a Argentina estava baseada numa tese falsa de que quem dominasse a Bacia do Prata dominaria a América do Sul.
Não queremos ser uma potência nuclear, porque seria um suicídio, mas, sim, uma potência econômica, uma potência cultural, uma potência de convivência racial, religiosa e política, influindo mundialmente na paz e pela paz.
Repito, uma vez mais, que, com nossa decisão pacifista, minha e de Alfonsín — que me chamou de “estadista da América”, e eu a ele dei o mesmo reconhecimento —, de banir das nações sul-americanas as armas nucleares, contribuímos para a paz da humanidade, que há de lembrar que fomos pioneiros em considerar que, enquanto existir uma única arma nuclear, o mundo não dormirá tranquilo.
José Sarney, ex-presidente da República, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras.
Fonte: https://www.correiobraziliense.com.br/


