Rio Branco, AC 25 de julho de 2026 15:52
HOME / ARTIGOS / A fúria dos eleitores ao redor do mundo

A fúria dos eleitores ao redor do mundo

Nesta semana, o Reino Unido empossou seu sétimo premiê em uma década. A França viu passar quase o mesmo número de líderes em alguns anos. Sua próxima presidente pode ser Marine Le Pen, figura antes marginalizada. Na Alemanha, o partido de extrema direita AfD – minúsculo há poucos anos – lidera as pesquisas.

Até as democracias do Leste da Ásia – estáveis, prudentes e até monótonas – viram governos no Japão, na Coreia do Sul e em Taiwan enfrentarem dificuldades em meio à crescente insatisfação popular. E, onde populistas estão no poder, a situação não é muito diferente. Donald Trump registra um índice de aprovação perto do mais baixo já visto entre presidentes americanos modernos nesta fase do mandato. As democracias conseguem funcionar?

Em todo o mundo democrático, muitos países tributam, contraem empréstimos e gastam quantias exorbitantes. Os gastos já representam, em média, mais de 40% do PIB de países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), e a relação entre a dívida e PIB nesses países mais do que dobrou nas últimas três décadas. No entanto, as pessoas não parecem acreditar terem sido beneficiadas.

Por que isso aconteceu? Parte da explicação é econômica. O custo elevado da moradia, a estagnação da renda e o aumento da desigualdade alimentaram a insatisfação. Mas a economia é apenas uma parte da história. Os EUA registraram um crescimento mais robusto do que a maioria das outras economias avançadas.

A França, sob a presidência de Emmanuel Macron, reduziu o desemprego e atraiu mais projetos de investimento estrangeiro do que qualquer outro país da Europa por sete anos consecutivos, segundo análise da Ernst & Young. A Coreia do Sul é um caso de sucesso econômico. O Japão vivenciava uma recuperação. No entanto, governos democráticos são impopulares em quase todas as partes.

A explicação mais ampla é que estamos vivendo uma das grandes revoluções tecnológicas da história. E essas transformações sempre geram profunda ansiedade e medo.

REVOLUÇÃO. A última transformação tecnológica dessa magnitude ocorreu entre 1880 e 1920. A eletricidade, o telefone, as ferrovias, o automóvel e o cinema revolucionaram setores inteiros e modos de vida. Milhões de pessoas deixaram o campo rumo às cidades.

O comércio global desestabilizou economias locais. Novas fortunas surgiram da noite para o dia, enquanto antigas profissões desapareciam. Nesse cenário de turbulência, a frustração e a raiva encontraram canais de expressão política. A esquerda voltou-se para o comunismo; a direita, para o fascismo. O que se seguiu foram novos movimentos de massa, convulsões culturais e uma guerra mundial.

AVANÇO. Nossa revolução é digital, e não elétrica: começou com os computadores, seguiuse com a internet, depois com os smartphones e as redes sociais e, agora, com a inteligência artificial. Esta última pode vir a ser a mais transformadora de todas. Como disse na semana passada Demis Hassabis, da DeepMind: “Encontramos uma maneira de fazer a areia pensar” – uma referência aos chips de silício, feitos de areia.

A capacidade de produzir inteligência em massa – uma inteligência que se torna mais poderosa a cada mês – é, certamente, o maior triunfo tecnológico da história. Mas isso também significa que ela pode ser a mais disruptiva.

O cientista político Samuel Huntington observou que “o problema fundamental da política é a defasagem no desenvolvimento das instituições políticas em relação às mudanças sociais e econômicas”. Mudanças em grande escala geram ansiedade. E sociedades ansiosas exigem mais da política. Os cidadãos querem líderes que restaurem a ordem, garantam a segurança e os ajudem a recuperar a sensação de controle sobre forças que parecem, cada vez mais, escapar ao alcance de qualquer pessoa.

Embora a tecnologia eleve drasticamente as expectativas, ela também torna o governo democrático menos capaz em comparação. Chamamos um carro em três minutos. Uma encomenda chega no mesmo dia. A IA responde a perguntas complexas em segundos e realiza, em poucos minutos, tarefas que antes levavam meses para serem concluídas por pessoas.

Naturalmente, os cidadãos passam a esperar uma eficiência semelhante por parte do governo. No entanto, a democracia não foi concebida para a velocidade; ela foi concebida para a legitimidade. Ela negocia, busca consensos, consulta tribunais, protege grupos vulneráveis e equilibra interesses conflitantes. São justamente essas salvaguardas que distinguem a democracia do autoritarismo. Contudo, em uma era marcada pela velocidade vertiginosa da tecnologia, elas parecem cada vez mais sinal de paralisia.

REDES SOCIAIS. As redes sociais ampliam essa lacuna. Cada erro governamental tornase instantaneamente visível. Cada decepção transforma-se em uma polêmica viral. Qualquer cidadão frustrado pode mobilizar milhares de outros antes mesmo que os governos comecem a reagir.

Isso ajuda a explicar a trajetória peculiar do populismo moderno. Políticos como Donald Trump, o brasileiro Jair Bolsonaro e o argentino Javier Milei ascenderam ao poder prometendo romper à força os impasses institucionais. No entanto, uma vez no cargo, a maioria deparou-se com a mesma realidade enfrentada pelos líderes que substituíram. Os insurgentes de hoje rapidamente se tornam os governantes decepcionantes de amanhã.

As pessoas não parecem ter perdido a confiança na democracia. Elas não viraram as costas para eleições, constituições e tribunais independentes. Contudo, estão profundamente insatisfeitas com o desempenho democrático. As democracias precisam provar, mais uma vez, que são capazes de construir casas e infraestrutura, modernizar serviços públicos, gerir mudanças tecnológicas e reduzir a desigualdade – e fazer tudo com urgência e eficácia.

LIBERDADE. A história oferece motivos para otimismo. Sociedades livres frequentemente parecem mais frágeis em meio a grandes transformações tecnológicas, pois avançam lentamente e debatem incessantemente. No entanto, ao longo do tempo, elas geralmente se adaptam melhor do que as autocracias, justamente por serem capazes de aprender, corrigir erros e mudar de rumo sem recorrer à violência ou à repressão.

Líderes democráticos não devem tentar competir em velocidade com a tecnologia. Eles não conseguiriam vencêla. Devem, porém, demonstrar – por meio de competência e foco incansável – que as democracias são capazes de entregar resultados. Assim, as pessoas compreenderão que o atrito inerente à prestação de contas e o peso da legitimidade não são falhas do sistema. São, na verdade, as características que preservam a nossa liberdade.

Fareed Zakaria é um escritor e jornalista indiano especializado em relações políticas internacionais
Fonte: https://www.estadao.com.br/